O Santuário refletido no espelho


Uma pintura que vem da alma? Por que dizemos que o que vem da alma pode ser popular num país em que o que temos de mais representativo é a nossa própria cultura, o nosso modo de viver, de se multiplicar entre arte e religiosidade, entre sagrado e profano, com o nosso jeito de olhar e de sentir, dor e prazer? A arte naïf se apropria de um instante - como na fotopintura - para em seguida imortalizá-lo em suas cenas da vida cotidiana, com a representação da vida pública e privada, uma espécie de espelho íntimo onde estarão representados os desejos e as esperanças de ir do ontem e do hoje ao muito além, num universo pictórico (e em outros suportes) onde a forma de ser sofisticado é sendo inesperadamente simples. Trata-se de um ato de perpetuação. Da constatação de um mundo que surge de um interior profundo, com seus personagens sedutores que não são nem eruditos nem tampouco populares, com uma linguagem já definitiva, em alguns momentos até “mental”, mas, na maioria das vezes, provocante.

Liberto em sua expressão popular o artista naïf se livra do medo para entregar-se à descoberta de si mesmo. Como na fotopintura: ao entregar um retrato (entre os séculos XVII a XIX, nos Estados Unidos, a pintura primitivista nasceu da tradição dos retratistas amadores) para ser reproduzido da forma em que pensamos ou queremos ser, no ambiente que nos convém, entregamos aos olhos do artista fotopinturista uma parte da nossa existência, para que possamos ser retratados “o mais parecido possível”. Essa interpretação só será completa se houver liberdade e mãos para trabalhar com as ferramentas que buscam os deslizes e acertos da alma. Nem a arte naïf nem a fotopintura - mesmo com traços geográficos distintos - mente. São híbridos a partir de um imaginário romanceado, uno ou duplicado. São dois tipos de “retratos” de uma mesma vida brasileira que se renovam porque no dia seguinte o que antes era um imenso quintal arborizado hoje já é asfalto, automóveis, motos, aviões.

Mas haverá sempre um fogão a lenha acesa dentro de uma casa naïf, um maço de ervas para curar o futuro, um casamento cruzando a pracinha de uma cidade mínima, a primeira missa no Brasil, a família com seus dez filhos que dormem até dentro do guarda-roupa, o som da aparelhagem sobre a cabeça do andarilho, o gesto escultórico que rompeu o veio da xilogravura, o beijo na boca entre dois homens que não precisaram “passar” na televisão corroídos pela sinistra e pré-histórica moral da novela das nove: nossos desejos são maiores que suas vontades. Está escrito. Na próxima Bienal Naïfs do Brasil o fogão a lenha será aceso mais uma vez. A nova família poderá aparecer com uma dúzia de filhos. Outra vez a realidade será subvertida. Se há globalização - essa infeliz ideia que conquista os neurônios dos menos favorecidos -, a arte naïf tece nas mãos os limites da insistência: repetimos porque somos assim e não queremos possuir o rosto “do outro”, mesmo se no retrato pintado o pigmento já tenha escorrido para fora das bordas da imagem. Trata-se de uma renovação que também poderá ter influências eruditas (espectros do olhar/inconsciente coletivo?), mas que se torna independente e possui nome próprio.

Ao aproximarmos o universo da arte naïf ao universo da fotopintura pretendemos proporcionar o encontro e a possibilidade de relermos dois aspectos de uma manifestação artística fundamental no Brasil. A fotopintura está “dentro” da arte naïf. Não propomos nenhum tipo de comparação, mas, sim, de encontro: um pertencimento que deverá ser visto e tratado não apenas com olhos “de passagem”. A técnica da fotopintura está desaparecendo. Mestre Júlio Santos resiste, agora diante dos computadores, em Fortaleza. O pesquisador alemão Titus Riedl, que vive no Crato, coleciona retratos pintados desde que reconheceu o país. A arte naïf vem ultrapassando décadas para não ser tratada à margem e ser reconhecida como deve. Tratado como grande pintor, o mais reconhecido dos primitivos, o francês Henri Rousseau, tem sua obra no Louvre, ao lado da Mona Lisa. Por que temos tanta dificuldade em entender o que é nosso? Por que queremos sempre ser o “outro”, importado, superficialmente tingido e com prazo de validade vencido?

É uma honra estar ao lado desses artistas que no silêncio de suas composições lidam com linguagens definitivas para a construção da nossa identidade, seja ela qual for, e do cuidado que teremos que ter em proteger o nosso imaginário, a nossa crença, as nossas dúvidas mestiças e os nossos conflitos diante do que chamamos de memória.

 

Diógenes Moura, curador da Bienal Naifs do Brasil 2014