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Jurados

A arte que emana do povo – a tradução do humano

Ricardo Amadasi

Artista Plástico e Pesquisador de Arte Popular. Curador do map – Museu de Arte Popular de Diadema

Hoje, o desafio da cultura é repensar valores. Possibilitar reflexões. Destravar o desenvolvimento humano. A cultura brasileira é fruto da miscigenação de diferentes povos que introduziram seus hábitos e costumes, criando um novo tecido social híbrido e em constante transformação. O Brasil é o espaço certo para as multiplicidades, pluralidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos.

Todo esse imenso manancial de cruzamentos e aproximações, simbióticos ou não, manifesta-se como reflexo na convivência humana, construindo o mosaico da identidade cultural de um país. Identidade que não é nada além de um conjunto de crenças e representações simbólicas que dão sentido ao conceito de cidadania.

No atual mundo contemporâneo, chamado de pós-moderno, o abismo das contradições e desencontros acentua-se a cada dia. As várias tentativas de impor formas hegemônicas ao comportamento humano recebem contestação em todo o planeta. A intolerância prevalece, gerando fragmentações no tecido conceitual e ideológico, precioso acervo da história da humanidade e seus sonhos, atropelando seus princípios coletivos, seu pluralismo cultural e sua diversidade, com a perda do conceito de múltiplas identidades e seus variados processos de construção. Surge uma única verdade num mundo cada vez mais globalizado: o mercado. Um mercado persa que mistura valores simbólicos com valores de mercadoria. Mercado de ideias, mercado de produtos, mercado de fé, que provoca uma mudança no psiquismo humano, com a banalização do mal e da violência, e com a normalização das patologias.

Existe hoje uma forma central de cultura, e as outras têm que resistir. Formas privilegiadas, culturas distantes e alheias às necessidades de convívio do povo, apresentam-se como expressões da verdade, como únicas tradutoras de nosso momento de transição histórico, tentando determinar o que nós somos. Numa terra aparentemente de ninguém, cheia de vazios e perplexidades, tudo podeser preenchido. Onde tudo vale e ao mesmo tempo não tem valor, surge uma galeria surreal de personagens redentores e salvadores reativando diversos fundamentalismos religiosos. Neste enorme e complexo universo, floresce a simplicidade de artistas independentes, independentes inclusive da vontade mercadológica, que acreditam na arte como comportamento e elemento de transformação.

A reflexão, o pensar, origina-se no olhar. Quanto mais intensa a educação do olhar e da forma de olhar, mais verdadeira será a compreensão da realidade que nos cerca. Se realmente é verdade que a arte age no domínio da emoção, estimula os sentidos e amplia a sensibilidade, essa sensibilidade permite-nos interrogar, questionar que tipo de sociedade nós construímos e vivenciamos hoje.

Uma revisão poética da história brasileira torna-se necessária. Todas as formas do cantar e contar as diferentes realidades através das mais diversas narrativas formam um inesgotável campo de pesquisa para aqueles que realmente desejam aproximar-se da alma de um povo. A arte é feita de imaginação e a vida do povo é feita de sonhos. Um olhar cuidadoso a nossa volta possibilita-nos verificar que os conteúdos simbólicos presentes no inconsciente coletivo estão em todo lugar, mobilizando os espíritos e comovendo as pessoas.

Os signos surgidos da arte que emana do povo aproximam-nos da vida, e convidam-nos a um exercício de interpretações sem limites, como a própria imaginação humana: sempre mutante e surpreendente.

A cultura espontânea brasileira é uma das manifestações mais importantes de nossa época.

O imaginário visual que surge do povo traduz como o povo pensa e sente. Um povo que não quer fazer a guerra entre si, nem fazer parte das disputas pelas supremacias do poder, vive, e convive, pelo contrário, dentro do cotidiano das diferenças, acreditando no respeito humano, no respeito do outro diferente de nós e bebendo nesta fonte do imaginário popular de inesgotável sabedoria.

A arte de origem popular é a representação sempre renovada da afirmação da vida. De uma vida que se manifesta através de cores intensas e formas definidas, de maneira sempre espontânea. Em cada beco, esquina ou lugar onde o povo se reúne, há a manifestação do sentimento de alegria, o gosto pelas festas que aproximam as pessoas, estabelecendo trocas simbólicas num ato de reafirmação de fé na humanidade.

Paradoxalmente, os artistas vinculados à arte popular, por nunca terem passado por uma formação clássica ou acadêmica, são campo fértil para o exercício da sensibilidade humana. Livres e espontâneos, tendo a intuição como principal instrumento, transformam a vitalidade e a energia que os caracterizam em motivação para a criação de novas realidades, num processo de alquimia e metamorfose presentes no imaginário do povo. A arte, uma simbolização da possibilidade de mudança e revolução. E se esse talento criativo fosse considerado como um valor para a sociedade? Arte popular se toca com o coração. Seres afirmativos, dotados de imensa coragem e resistência, acreditam em seus próprios sonhos, atribuindo através da arte um novo significado a sua própria existência, muitas vezes marginalizada. A arte é o espaço imaginativo dos adultos. O painel diversificado da Bienal Naïfs do Brasil 2010 transforma-se num espelho panorâmico deste rico caleidoscópio cultural. Trezentos e setenta e oito artistas inscritos de vinte e dois estados representados. Inquietos, vibrantes, sonhadores e provocadores, e fundamentalmente grandes seres humanos que se relacionam com a obra como se relacionam com sua própria vida: com emoção, sem violências e de maneira franca e sincera. Alguns dos artistas participantes escolhem expressar-se através de grandes composições cenográficas, cheias de situações enriquecedoras; outros impressionam pela vitalidade expansiva de suas propostas. Existem artistas que optam pela recordação do tempo passado, à procura do tempo perdido. O humor está sempre presente no imaginário visual do povo. E como diferenciar a presença destacada dos artistas que estabelecem uma relação mais íntima e poética com sua obra, cheia de sutilezas, nuances, e paisagem interiores?

Nenhuma unanimidade é possível ou fecunda. A idéia central é destacar o lado humano de cada um dos artistas, porque é difícil julgar qual deles está mais certo que os outros. Porque não existem formas certas ou predeterminadas. Só existem abordagens e aproximações mais sensíveis e relacionamentos mais poéticos.

As belas praias da Arte Naïf, como toda baía acolhedora, recebem as mais variadas influências de correntes artísticas diferentes, que banham e alteram sua geografia original. Neste ir e vir, chegar e partir, criam-se novos e frutíferos diálogos com outros pensamentos visuais. Toda cultura é essencialmente híbrida e em constante movimento, encantando-nos com a beleza do contato com as novas descobertas, enriquecidos com o contato de novos sentimentos. Não existe arte em estado puro. Por que com a Arte Naïf seria diferente?

Jurados Geraldo
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